quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Devagar com o Andor que o Santo é de Barro

Quem me conhece sabe que eu esperava há muito tempo pela bomba atômica do deleverage e suas nefastas conseqüências. Sempre soube que quando a tsunami atingisse a minha praia ela aniquilaria uma parcela considerável dos investidores e dos indivíduos comuns, pois ela não se limitaria às fronteiras do mercado. A minha sensação é que poucos se deram conta do poder de devastação dessa onda e que muitos, na crença de que os governantes têm o antídoto perfeito, ainda estão subestimando a sua força.

Assisti horrorizado na virada do século o total das dívidas das famílias, agentes privados e públicos, em relação ao Pib dos EUA, superar o percentual atingido em 1929. Porém, eu não sabia quando a escalada do aumento das dívidas atingiria finalmente um fim. Sendo avesso ao risco, eu confesso que os últimos anos não foram fáceis para mim. Tendo que garantir o leite das crianças, eu não tinha como evitar o lado da compra e não foi fácil enfrentar essa parada, quase sempre com uma só bala na agulha.

Eu sempre fui tomado pela indignação quando assistia às entrevistas levianas dos permabulls (bulls permanentes), a quem eu julgava cínicos, por se tratar de dinheiro de terceiros, ou despreparados. Após finalmente me conscientizar de que essa postura só prejudicava a mim, eu fui forçado, por uma questão de sobrevivência, a realizar um longo trabalho mental para aceitar a realidade que se apresentava.

Eu não sei o que determina o limite que cada pessoa suporta em termos de riscos financeiros, mas eu tenho a plena convicção de que a maioria o ultrapassa por pura ignorância. Eu sei que o meu não é muito elástico, o meu instituto de sobrevivência é aguçado e somente quando eu vejo o goleiro batido e o gol escancarado é que eu bato no peito e viro um Tarzan. Embora esses momentos sejam raros, foram eles que garantiram a minha sobrevivência até então.

Uma hora eu vou ter que enfrentar esse bear market que parece não ter fim, pois novamente estou diante da situação de ter que garantir o leite das crianças. O short side eu já abandonei há algum tempo por pura disciplina espartana, e não tem faltado tentação. Então no momento me sobrou o long side, o da compra.

Felizmente, tendo me preparado para enfrentar esse black swan (que não é tão black assim, pois era esperado por muitos) eu posso me dar ao luxo de não me açodar. E é o que estou fazendo, exercitando toda a minha paciência, mas por outro lado armado de trocentos termômetros para medir a força desse bear market e tentar descobrir quando ele dará uma folguinha.

Nem as recentes investidas no mercado de ações e os apelos patrióticos grotescos (ingênuos nunca) de Warren Buffett, com um discurso irresistível à naivité do caipira norte-americano, abalaram a minha postura gélida em relação ao mercado.

Desde o dia do anúncio, feito após o pregão de 23 de setembro, de que Warren Buffett injetou US$ 5 bilhões em ações preferenciais no banco Goldman Sachs, as ações ordinárias caíram 56%. Sendo um value investor que somente foca o valor das ações e despreza o timing, ele se pode dar ao luxo de deixar na mesa mais de U$ 2,5 bilhões de perdas em uma única tacada. Nós mortais estaríamos fritos.

Faltando uma hora para o pregão terminar ontem em NY, o SPX empreendeu o esperado rompimento da região de congestão que já durava cerca de 40 dias, tendo deixado órfãos todos os investidores e especuladores que compraram nesse período. Caso nessa quinta-feira o SPX não retorne para dentro do caixote e aceite o rompimento de sua parte inferior, estaria confirmado tecnicamente o breakout que eu contava somente para a semana que vem.

No entanto, a musculatura do bear já não é a mesma. Em 9 de outubro, quando pela 1ª vez o SPX visitou o nível dos 850 pontos, 90,6% dos 500 papéis registraram novas mínimas em relação aos últimos 20 pregões (1 mês) e 85,4% em relação aos 60 pregões anteriores (3 meses). No fechamento de ontem esses percentuais eram, respectivamente, 60,8% e 56%. Portanto, há sinais de alguma seletividade nessa fase de baixa, porém a prudência recomenda aguardar mais uns dias para ver se esse quadro se mantém. Além disso, breakout foi feito com volume igual à sua média nos últimos 3 meses, portanto, nada espetacular.

O gráfico diário abaixo, que cobre o período desde março de 2008, mostra na parte superior o volume financeiro e normalizado exclusivamente da carteira do SPX e no corpo do gráfico o R H-L 20 dias na cor violeta, além dos Dias Notáveis (DCA, DCB e DD). Lembrando, os DCAs são identificados pelas setas verdes ascendentes.

O R H-L 20 dias é um indicador pontual (que não depende de média móvel para a sua construção) que mostra, em percentual, o ponto em que na média os preços dos papéis de uma carteira se encontram dentro do intervalo compreendido entre as respectivas máximas e mínimas nos últimos 20 pregões.


Fonte: KB – figura 1 (clique na imagem para ampliá-la)

Em 9 de outubro os papéis se encontravam em média em 0,8% entre o melhor e o pior fechamento nos 20 pregões anteriores e ontem esse percentual era de 12,2%, portanto, uma divergência positiva. A ressalva que eu faria, pela minha experiência, é que quando um indicador atinge um extremo raro é prudente aguardar pelo menos uma dupla divergência antes de tirar conclusões mais contundentes.

O quadro abaixo ilustra quais os setores que acompanharam o SPX no breakout, identificados pela letra S de “sim”, e as respectivas participações em ordem decrescente de importância na composição da carteira. No breakout em setembro 100% dos setores acompanharam o SPX, porém no momento, em termos de valor de mercado, somente 67,6%. É, portanto, mais uma métrica que revela a seletividade do movimento de baixa que pode estar se iniciando, um sinal de fraqueza do bear.


Fonte: KB – figura 2

Os weak hands que operam com opções finalmente sucumbiram ao pessimismo e, entre 0 (extremo otimismo) a 10 (extremo pessimismo), a nota que revela o sentimento atual entre os integrantes dessa categoria de especuladores pela 1ª vez atingiu o nível 9,3, somente superada em março quanto atingiu 9,6. Naquela oportunidade o bear tirou uma soneca durante 2 meses, embora os bulls não tiveram muita força para levantar o SPX.

Entrou chegou a hora da compra? Devagar com o andor que o santo é de barro. Ontem foi divulgado mais um importante leading indicator do mercado imobiliário, Housing Starts, que confirmou o Housing Market Index e que registrou, pasmem, o pior nível de toda a sua história que começou em janeiro de 1959. Na semana passada o ECRI revelou que o seu Weekly Leading Indicator registrou a mínima nas últimas 6 décadas.

Não bastasse isso, a taxa média dos títulos de alto risco, os junk bonds ou high yields, não tem dado folga e voltou ontem a registrar o pior desempenho no bear market, conforme venho alertando há algum tempo.

Na edição online do Financial Times foi veiculado hoje o artigo onde consta: “Average yields on US junk bonds have topped 20 per cent for the first time amid rising concerns about a protracted recession and a wave of corporate defaults.”

Pela primeira vez a taxa média dos títulos de crédito norte-americanos de alto risco ultrapassou o percentual de 20% aa em meio às preocupações em relação a uma prolongada recessão e a uma onda de inadimplências”. (tradução)

Outro fator de preocupação foi o rompimento da base do caixote, onde se situavam 2 DCAs mostrados na figura 1, uma mensagem agourenta que recomenda cautela e paciência, pois apesar do volume apenas normal ontem no breakout, há o risco de surgir uma onda enorme de estopes institucionais que jogariam na lata de lixo todas as divergências positivas mencionadas acima, relacionadas à seletividade observada pelo mesmo no início do rompimento.

Também chama a minha atenção, a volatilidade implícita no nível de 74,26% aa que não está, diante da gravidade da situação, suficientemente distante do valor justo de 52,6% aa pelo meu modelo.

Last but not least, o importante e cíclico setor de tecnologia registrou ontem nova mínima, embora com volume médio, e o problemático setor bancário acompanhou o SPX no breakout.

Não existe economia com tração sem que as ações do setor bancário encontrem um piso no movimento de baixa. Não é à toa que em todas as fases finais dos bear markets existentes no passado, as ações dos bancos apresentaram desempenhos relativos superiores aos das ações dos demais setores. Nem de longe tem sido o caso atual.

Resumindo toda essa narração fastidiosa, cautela e caldo de galinha continuam sendo a melhor receita por ora, pois em bear markets as surpresas acontecem com mais frequência no downside. Por outro lado, já não julgo razoável se aliar aos permabears sob pena de perder a chance de aproveitar um cochilo de um urso que já não tem, aparentemente, o mesmo apetite.

Neutralidade será, pelo menos de minha parte, a postura que eu irei doravante adotar após um longo período abraçado ao urso.

6 comentários:

Carlos Magno disse...

Com a defasagem do fechamento entre Bovespa e EUA, se minha conta não estiver errada, a ADR da Vale PN fechou 3,35% abaixo do fechamento dela na Bovespa (22,50) e a ADR da Petr PN fechou 4,97% abaixo (18,50 na Bovespa).
E hoje é feriado em São Paulo.
Se o trem ficar feio nos índices americanos hoje, amanhã a Bovespa já abriria fechando (circuit break).

KB se você pudesse postar aquele seu Bovespa sem Petr e Vale, pois ontem a Bovespa fechou ontem 13,5% acima da mínima recente (29,4 k) e a Petr fechou ontem, no Brasil, a 2,2% acima do sua mínima (18,11).

JOSE AUGUSTO disse...

KB, TEM A ANÁLISE GRAFICA ATUALIZADA DA CURVA YELD EM RELAÇÃO DO DJ....AQUELA QUE VC TINHA POSTADA LOGO ABAIXO...O YELD E A BOLSA EM NYC ESTÃO ANDANDO NO MESMO COMPASSO...ENQUANTO AS COISAS NÃO MELHORAREM O PESSOAL VAI ENCHER O CAIXA DO TESOURO AMERICANO....

Anônimo disse...

Para mim ainda está cedo para abandonar o barco. O fundo do poço para o mercado americano será SP500 a 500, USDJPY a 80 desemprego a 9% e acontecerá perto do fim de 2009. No curto prazo o resultado das empresas no 4T08 será pior que o esperado e a pressão de baixa persistirá até o final do 1T09. A grande sacada e o fato da recessão ser generalizada e portanto os fatores que facilitavam a recuperação das economias via comercio externo não irá funcionar desta vez.

aguia disse...

mestre KB:

acabo de reler seu issue e mesmo já acostumado à excelência de suas observações, sôbre o mercado bursatil, local e mundial e sôbre a macro-economia idem, não resisto em relevar, além das respeitaveis e objetivas considerações acima, o seguinte:

1. sempre quase hermético, por radicalmente discreto, jamais o vi abrir o coração assim antes; o que - a meu ver - revela; não para minha surprêsa; o grande cara que existe atraz do também insuperavel analista e comentarista do MFI; e isto - de ser e demonstrar, com singela linear humildade e cristalina transparência, seu lado natural de apenas ser humano, como todos nós - o credencia mais ainda aos olhos de seus amigos e leitores, com certeza... principalmente, aos daquêles poucos, mais próximos, que o sabem ser o trader individual tupiniquim de maior envergadura operacional.

2. não creio, em absoluto - mesmo que tècnicamnte meu tôsco penhaskim de luneta, esteja situado a bem mais baixo nivel e a milhares de km de seu moderno, sempre atualizado e sofisticado Observatório da Serra do Cipó - que o atual BIG BEAR seja macho e já sem apetite... na nossa velha intimidade com esta cíclica espécie (que até nos permite chamá-la de Tsuzinha, pois que filha primogênita da famigerada big wave tsú atual), dá para ver claramente que é uma fêmea e que está inclusive grávida, pois vai render filhotes - daí mais feroz ainda e mais ávida e ameaçadora - totalmente esfomeada portanto, mais agora, depois da soneca do último quilo.

3. Indicadores a parte, o mercado bursatil hoje, é "peça menor", tanto no tabuleiro do xadrez mundial onde o tsunami dá cheque mate do tipo de 29; quanto no efeito dominó; já que no atual cenário não há que se falar em mesas de poquer e MUITO MENOS em caça-niqueis, pois quem - inadvertida ou irresponsavelmente - se aventurar a brincar de surfar nestas ondas, leva uma puta chance de, na melhor das hipóteses, quebrar a cara na praia.

4. comungo consigo, o que me honra, o traduzir ser mais uma atitude de hedge psicológico ou gesto solidário de gratidão a WS (sua eterna e generosíssima fonte), o gesto, tanto de Soros quanto de W. Buffett (se já não pirou) e considero de sabedoria ímpar, a sua recomendação aqui, de "cautela", incontida e escancaradamente, clara e precisa, neste post; pois, doravante, as melhores Ferramentas e ou Indicadores são, penso eu:

CONSCIÊNCIA da real gravidade da endemia atual - siamesa da de 29 em certos aspectos e já admitida pùblicamente de forma direta e indireta - como declarado pela própria OCDE a uma semana (e ainda só disfarçada por ufanismos tipo o do intimorato presidente sortudo por não matar o plano Real, a ressucitar o mote do "Mêdo" da Regina como motor principal da tsú)... PACIÊNCIA, a evitar descalabros tais como o tipo de renitência de treidar; e a oti'mística' insistência de ver sinais mais claros no horizonte, onde o claror é calor de Fôgo... e finalmente la creme de la creme, a indefecctivel CANJINHA, of course e não na colherzinha, BUT (by Bob) a "rôdo"!

eis que a parte do leão, os tubas já levaram, na cruel Transferência pós alavacagem - aritmética em WS e geométrica em Pindorama - ficando os restos e ossos para serem disputados com as hienas... coisas selvagens essas que grassam pelo market geral, algumas disfarçadas até de regra 3 - scalpers de pôços e foruns - ou de rodinhas de incertas corretoras muito ativas em derivativos de DT.

bração e PARABENS por um dos melhores posts que já 'cometeu' (rsrs).

KB disse...

1-Carlos Magno

ok, enviarei para o teu email

2-JOSE AUGUSTO

bote nessa seção "comentários" a URL desse texto, pois não estou me lembrando

3-Anonimo

Meu palpite é que o fundão ficarah para o 2o. Sem de 2009 (que tal set/out/09 ?), mas é só um palpite sem nenhum compromisso.

no entanto o leite das crianças não pode esperar e irei tentar achar um playable pull back

4-aguia

"CONSCIÊNCIA da real gravidade da endemia atual " será realmente o melhor antídoto contra o fracasso nas lides bursáteis nesses tempos bicudos.

turma do boteco disse...

Tenho procurado notícias sobre comentários de Paul Volcker, chefe do FED entre 1979/87, e que agora voltou à mídia por ser o conselheiro econômico do Barack. As notícias mais recentes que li saíram no site da Bloomberg eram referentes à palestra dada para a Major League Baseball e dizem sobre o prolongamento da crise, para fazer o ajuste da economia dos EUA.