terça-feira, 25 de novembro de 2008

Conjecturas

Para eu formar uma posição long que faça diferença substancial no meu bolso, o quadro atual ainda não ativou o meu gut feeling, embora desde a semana passada a minha visão sobre o mercado de ações se tornou mais construtiva (talvez a expressão empregada por Seagull seja mais apropriada: PermaAlert). A minha anunciada neutralidade, convém ser esclarecida, deve-se ao horizonte das minhas operações que, diante das circunstâncias, não deverá ultrapassar o intervalo entre 1 a 3 meses.

Quem tentou achar o fundo (bottom fishing) do movimento de baixa iniciado em maio já foi devidamente abatido pelo bear. Diante das circunstâncias eu empregarei uma abordagem bem disciplinada e nada de bottom fishing. O que falta para causar saliva na boca? Em vista do que assistimos faltam números superlativos que a seriedade da crise exige.

Eu gostaria de ver: (a) pessimismo entre os traders de opções lançadas sobre o SPX; (b) um pivô de alta seguido de um price action apropriado no Bovespa e no SPX, leia-se um DCA com volume de cair-o-queixo ou o rompimento da máxima intradia de um DCB com semelhante volume; (c) setor bancário lá fora (BKX) negando efetivamente o breakout para baixo; (d) os spreads dos títulos high yields dando uma folga e (e) um trigger que provavelmente será ou o anúncio de um estímulo fiscal de-quebrar-de-vez (um pouco de exagero nessa expressão que serve apenas como ênfase) o Tesouro dos EUA ou uma melhora de um leading indicator importante.

Por pivô de alta eu me refiro a um fundo duplo ou um quase-reteste do fundo mais recente que, na linguagem de Elliott, seria uma onda 2. O price action a que me refiro seria um DCA arrasa-quarteirão ou o rompimento da máxima de um DCB com volume semelhante, que anunciaria a todos bons ouvidos o início de uma onda 3 (observe no link anterior a contagem de ondas no gráfico), ou seja, o momento em que a catapulta teria sido ativada.

Durante a formação dessa plataforma os traders deveriam manter uma postura cautelosa, idealmente pessimista, e os High Yields uma folguinha nos spreads, pelo menos.

Se a catapulta surgir após um fundo duplo eu estaria comprando muito perto da mínima do mercado, caso contrário já seria um pouco distante do fundo, porém em condições de risco apropriadas à ocasião.


Fonte: KB

O gráfico diário ao lado mostra o SPX desde o início de 2008 e as cores das barras refletem o humor dos traders auferido por 4 critérios. As cores variam do vermelho (ruim para a compra - excesso de otimismo) ao azul escuro (bom para a compra - excesso de pessimismo). A curva vermelha sobreposta ao SPX mostra a evolução do desempenho (não o spread) dos High Yields, ou seja, revela melhora quando a curva sobe e vice-versa.

Recentemente e por um breve período os traders se tornaram bastante pessimistas (barras azuis). Bingo! O mercado subiu, rompeu a máxima de um DCB e botou os permabears numa sauna. Até o momento foi a única condição atendida, embora em condições normais o rompimento da máxima do DCB já teria atendido parcialmente a condição (b), porém, convenhamos, a crise é das bravas.

Três dados me incomodaram hoje. Primeiro foi o humor entre os traders de opções, especificamente nessa segunda-feira em que os eles estiveram mais saltitantes de alegria do que uma gazela. Contudo, convém mencionar que, embora o comportamento dos traders nos últimos “x” dias seja apenas um dos 4 critérios que eu emprego, eles exageraram no otimismo nessa segunda-feira.

Segundo, o volume na Bovespa esteve abaixo da sua média móvel de 3 meses, a minha métrica para classificar a potência do volume, tendo sido, portanto, fraco. Pode até ser que surja volume nos próximos dias, porém o que vi nesse segunda-feira foi decepcionante.

E terceiro, os detentores dos títulos high yields parece que não foram informados sobre o bailout do Citigroup, para tanto observem o comportamento da curva vermelha no gráfico apresentado acima, que nem se mexeu nos últimos 2 pregões de euforia no SPX.

O mercado de ações não irá esperar todos os leading indicators estarem tinindo para somente então começar a reagir. Os grandes players irão antecipar a melhora da atividade econômica sendo que, na média (anotem essa regrinha de bolso), o SPX começa a subir 4 meses antes do pior momento. O pior momento muitas vezes serve de pretexto para uma onda 2 de Elliott e para o retorno de um forte pessimismo.

O banco Goldman Sachs reviu na sexta-feira suas projeções para o Pib dos EUA que ficou assim (taxa anualizada, trimestre contra o imediatamente anterior): -5% no 4°T/08, -3% no 1°T/09, -1% no 2°T/09 e +1% no 3°T/09, portanto, o pior momento se situaria em meados do 2°T/09. Mantido o padrão o fundo se situaria no começo do 1°T/09, embora eu deva enfatizar que esse exercício serve apenas para fornecer uma pista.

A solução Keynesiana para as crises serviu para os adeptos dessa escola procurar o caminho mais fácil para resolver a atual crise que consiste em gastar, adquirir lixos tóxicos e encampar empresas falidas e dane-se o endividamento público e o coitado do contribuinte. Para mim é óbvio que não há uma solução quick fix, pois o deleverage terá que acontecer de qualquer maneira e consumirá um tempo muito maior do que as previsões que eu tenho lido.

Já comentei nesse espaço que desde meados de setembro a taxa real dos juros dos títulos de 10 anos do Tesouro dos EUA deu início a uma escalada. No meu modo de ver, assim que a economia global começar a pegar no tranco, haverá o risco da taxa de juros real de 10 anos nos EUA, atualmente em 3,06% aa (no começo do ano estava em 1,5% aa), se revelar como um efeito colateral bastante danoso da receita empregada. Como consequência o custo de capital das empresas aumentaria sobremaneira e os cidadãos afogados em dívidas hipotecárias sofreriam um novo revés.

Portanto, a minha visão mais construtiva ou, como quiser, de um PermaAlert em relação a o mercado, se refere tão somente ao médio prazo, pois em relação ao longo, a expressão usada por John Mauldin, muddle through, talvez seja a mais apropriada para descrever o meu mosaico.

4 comentários:

PAULO CÉSAR PEREIRA disse...

KB,

Excelente análise!

Se pior momento para os EUA se situaria em meados do 2°T/09, qual seria o pior momento para o Brasil?

O Ibovespa começará a se recuperar antes ou depois da demais Bolsas Mundiais?

Carlos Magno disse...

As pessoas físicas no Brasil estão de vento em popa em novembro.
Mas tem umas coisas que acho, na minha pouca sabedoria, interessantes.
Existem muitos novos CPF's (Em outubro 12% a mais do que em maio 2008) que entraram na compra "atraídos" pelas "pechinchas". Ou seja, compradores do topo do investiment grade, podem ter sido substituídos.

Outra coisa, aí a amostra é pequena, são as conversas que ouço das pessoas que convivo, no trabalho ou pelo aí da vida.
Com 60 mil pontas a Bovespa tava "barata". Com 53 mil um "pechincha", com 40 mil tava de "graça".
Hoje as mesmas pessoas demonstram-se tristes e não se entusiasmam muito quando vêm altas expressivas como a de ontem. E embora não liquidem as posições (creio que só farão se necessitarem de caixa (experiência própria que vivi na maxi de 1999)), elas vêm mais distante o dia em que pelo menos "empatarão" nominalmente.

Anônimo disse...

buenas!!! realmente o post demonstra o "calor" do momento atual....percebo que algum "dinheiro esperto" esta testando/tentando a compra.....mas serah....sinceramente...não dah para saber.....o lado direito do grafico soh saberemos depois.....
parabens pelo post

Seagull disse...

Rsrs...

Valeu KB pelo destaque ao PermAlert! :-)

Estamos juntos!

Abs ^v^