domingo, 7 de setembro de 2008

Relief Rally?

Todo o final de semana eu sento à mesa para repassar os meus indicadores macroeconômicos e técnicos com a finalidade de ajustar a minha visão sobre o mercado. Abaixo eu reproduzo o sumário das minhas conclusões sobre o mercado norte-americano:

Na última sexta-feira o SPX (código do S&P 500) chegou próximo ao low de março, porém o iminente socorro às agências Fannie Mae e Freddie Mac, de conhecimento de alguns insiders, ensejou uma recuperação que fez com que o dia terminasse no território positivo. Na verdade sabia-se que a ajuda viria, o que não se sabia era exatamente o seu timing. No início da noite de domingo o índice futuro do SPX subia mais de 2% e a resposta na Ásia até o momento era bem positiva.

Essa decisão do governo poderá servir de trigger para um novo rali, porém não deverá ser suficiente para o término do bear market. O leading indicator do ECRI para a economia norte-americana continua apontando para baixo e há mais de U$ 500 bilhões de novos writedowns no setor financeiro a serem anunciados nos próximos meses, sendo que está cada vez mais difícil de levantar capital. Conseqüentemente, os bancos deverão continuar o processo de desalavancagem que continuará a afetar as políticas de concessão de crédito.

Mauldin comenta apropriadamente em sua última newsletter que o ajuste em curso no setor financeiro se concentrará principalmente nos grandes bancos e que, por isso, novos grandes projetos não terão a mesma facilidade para encontrar funding como no passado.

Do lado do valuation, a equação P = M x L (meu modelo básico de valuation) referente à carteira do SPX, o termo “L” (Lucro nos próximos 12 meses) foi ajustado para baixo em meados de agosto e atingiu um nível minimamente aceitável, porém como efeito colateral o “M” (Múltiplo projetado) passou a ser o termo questionável da equação.

Nessa última sexta-feira (05/set), o Múltiplo do SPX era de 18,7 vezes contra 16,6 do meu modelo e 13,9 vezes pelo modelo do Bear Stearns. Se o Múltiplo do SPX convergisse para o meu modelo haveria ainda uma queda adicional de 11% do SPX em relação ao fechamento na última sexta-feira (1242 pontos). No entanto, convém enfatizar que não há precisão nos modelos dos Múltiplos, portanto o potencial de baixa comentado serve apenas como um exercício.

No horizonte de médio prazo, o lado técnico irá prestar um enorme auxílio na avaliação sobre o eventual esgotamento da baixa iniciada no ano passado, particularmente os indicadores de sentimento. O que se pode inferir no momento é que tanto a volatilidade implícita das opções do SPX quando as pc ratios não indicaram o esgotamento da baixa, pois sequer mostraram a existência de traços de pessimismo entre os traders de opções.

Poderá haver ainda o agravante, caso realmente o mercado reaja positivamente ao socorro anunciado às duas GSEs, dos traders de opções se tornarem otimistas em relação às perspectivas do mercado. Nesse caso, um novo impulso de baixa mais adiante ganharia ainda mais força, suficiente para o breakout do low de março, cujo timing ficaria para o final de setembro ou 1ª quinzena de outubro.

Caso o movimento de baixa se concretize no médio prazo e o Múltiplo do SPX recue para níveis mais aceitáveis, a precificação do mercado no final do ano, ceteris paribus, poderia tornar posições compradas atrativas no horizonte de médio prazo, ou seja, para carregamento durante alguns poucos meses.

No longo prazo, somente a yield curve e o spread positivo entre a taxa de crescimento nominal do Pib e os fed funds (medida da austeridade da política monetária) sugerem uma reação sustentável da economia norte-americana em algum ponto de 2009.

No entanto, dado a gravidade da crise bancária, convém aguardar uma melhora e, conseqüentemente confirmação, dos leading indicators que não apresentam tanta antecipação quanto a yield curve (média de 18 meses com um razoável desvio padrão).

3 comentários:

Anônimo disse...

Ave, Cesar!

...lembro-me, again, da estorinha do menino holandez que colocou o dedinho no buraquinho do GRANDE DIQUE (que impede que o mar invada pràticamente todo aquêle país, por isso também originàriamente chamado de Terras Baixas, por estar abaixo do nivel do mar), ao ver uma pequenina rachadura na gigantesca barragem, na tentativa pueril de estancar o fio d'água que - se não interrompido ainda no início do vasamento - iria, pouco a pouco, mesmo que água mole em toneladas de concreto duro, inexoravelmente ESTOURAR a reprêsa, inundando a Holanda...

E DEU CERTO!... o garoto salvou a pátria, diz a estorinha.

e daí?

daí que, penso e repenso êste seu Post e fico imaginando o Bernanke,
pueril não, do Ben ou não, com o poder de até mentir sôbre dinheiro, digo, de até emitir dinheiro, usando as mãos, os pés, as pás, e toneladas de doletas, para tentar tapar um outro buraco, já aberto porém... ah, se ANTES, bem antes (como alertávamos, vários de nós, eternos aprendizes, pôrrrrrraí, pelas praias da mídia bursatil) da bôlha das casas estourar, Sir Greenspan, soubesse da estorinha do tal menininho, houvesse - tal qual o garoto - êle, Alan, enfiado o dedo nesta estória, quem sabe?...

agora, creio e posso (e até desejo...) estar errado, BUT, parece que o buraco é Ben mais embaixo.

áxu.

eterno aprendiz disse...

Caro senhor.

Não entendi quase nada, tão intrincadamente hermético para mim a versatilidade de dados do seu método, quando matemático e ou comparativo, mas gostei muito do pouco que consegui captar e tenho certeza que me esforçando, ainda mais se o senhor deixar registrado na Internet um glossário, para acesso de incipientes estudantes de Economia como eu, quando necessário, tenho certeza que ainda conseguirei entender melhor suas análises macro e micro-econômicas. Mas, o pouco que captei aqui, a meu ver, vai me valer bem mais do muita análise econômica, aparentemente comprometida, que a gente lê por aí.

Desculpe a curiosidade, M A S ... KB significa o Q?

Boa Sorte para o Blog.

KB disse...

Eterno Aprendiz

Vc não viu nada ainda. Já havia pensado nisso, será necessário urgentemente um glossário. Providenciarei.

A origem do KB é uma longa história. Contando apenas o seu final, o "B" pode significar BULL ou BEAR dependendo da direção do mercado :)


Abs