terça-feira, 9 de setembro de 2008

Deixem a Lei de Darwin Aniquilar esse Bear Market

A metamorfose de um bear para um bull exige um requisito básico. A condição necessária, embora insuficiente, é que os ativos em poder dos weak hands passem para os strong hands. Os strong hands são os agentes mais capitalizados e que, portanto, têm melhores condições financeiras de fazer com que as engrenagens da economia voltem a funcionar. É tão simples quanto isso.

Essa metamorfose já está em andamento, embora o processo esteja inacabado. Começou com as infusões de capitais nos grandes bancos pelos fundos soberanos a partir do 2° semestre de 2007. No entanto, como os fundos soberanos se açodaram, pagaram muito caro pelas ações de bancos que hoje valem bem menos e estão amargando pesados prejuízos. Daqui para frente novas captações enfrentarão condições muito mais duras e, consequentemente, a velocidade da troca de mãos cairá bastante, sem perspectiva de voltar ao ritmo inicial.

O anúncio do plano de socorro às agências Fannie Mae e Freddie Mac faz parte da transformação do bear em bull. O strong hand no caso é o Tesouro americano, sendo que o contribuinte poderá pagar parte dessa conta. O fato dos bancos centrais, particularmente o Fed sob a tutela de Greenspan, terem adotado uma postura assimétrica em relação aos mercados, socorrendo-os nos estresses, mas sem cobrar auto-regulação nas bolhas, poderá ter conseqüências políticas negativas, caso o contribuinte tenha realmente que pagar parte da conta. A conseqüência mais óbvia seria um aumento exagerado na regulamentação dos mercados que teria como consequência o enrijecimento das engrenagens da economia, um retrocesso, mas por culpa das autoridades que deveriam ter coibido tamanha orgia.

Apesar do moral hazard embutido na decisão do Tesouro, foi melhor assim, devido ao ponto em que a coisa chegou. Não fosse dado esse passo poderíamos caminhar para uma situação bem mais estressante. Basta observar a trilha dos spreads dos high yields (junk bonds) que, em poucos meses de crise, quase atingiu os recordes no começo da presente década devido aos excessos de investimentos criados pela farra na bolsa eletrônica.

Como a cultura japonesa rejeitou a lei de Darwin como uma solução para a crise que emergiu no começo de 1990 no Japão, provocada pela enorme bolha nos ativos mobiliários e imobiliários, a economia daquele país permanece estagnada desde então. Os valores da sociedade americana são radicalmente diferentes e, apesar dos americanos não serem discípulos tão ardorosos quanto apregoam, a lei de Darwin funciona melhor nos EUA. Dessa forma, não se deve esperar que a duração da crise seja tão longa como no Japão.

Por outro lado, seria ingênuo imaginar que o quadro voltará a ser como antes. Uma maior regulamentação do setor bancário, o inevitável ajuste patrimonial do consumidor americano, que atualmente sustenta 70% do Pib norte-americano e 20% do Pib mundial, e o processo de desalavancagem financeira impedirão o retorno da orgia descontrolada.

A China, o país maior beneficiário de toda essa farra, não ficará incólume. Todo mundo sabe que os investimentos e o consumo são, nessa ordem de importância, os maiores drivers da economia chinesa, estando o comércio internacional em plano inferior. No entanto, os números consolidados escondem um enorme risco.

O saldo do comércio contribui com cerca de 7% do Pib, percentual aproximado, bem distante dos investimentos e do consumo. No entanto, após desmembrar esse número, verifica-se que as exportações representam cerca de 35% do Pib chinês. Muitos investimentos realizados, que integra a conta que mais contribui para o Pib, bem como empregos gerados que contribuem para o consumo, são frutos da máquina exportadora em que se tornou a China. Com os EUA, Europa e Japão em desaceleração não tem como passar batido nessa situação. Não se iludam com a revisão para cima do Pib norte-americano no 2° trimestre, pois o item responsável, a balança comercial, não terá a menor chance de repetir o desempenho.

O leading indicador do Economic Cycle Research Institute –ECRI- referente à economia norte-americana registrou recentemente mínima nos últimos 28 anos. Comentário suscinto do ECRI em 05 de setembro: "With WLI growth near a 28-year low, a business cycle upturn remains out of sight".

A desenfreada demanda chinesa por commodities chegou até a elevar esse ativo à categoria de investimento, como se um ativo que apresenta um fluxo de caixa negativo –devido ao custo de armazenagem- pudesse fazer parte de uma opção responsável de alocação de recursos. Mesmo as commodities que conseguem gerar algum fruto proveniente de aluguéis apresentam um duration infinito. Na primeira aula de um estudante de finanças deveria ser ensinado que quanto maior o duration de um ativo, maior a sua sensibilidade ao ciclo econômico. Veja o caso do níquel cuja cotação caiu 65% em pouco mais de 1 ano de bear market, sem perspectiva nenhuma de retornar ao pico registrado em 2007.

E ai chegamos ao nosso Brasil que foi um dos beneficiários da exuberância no mercado de commodities, mas sem ter aproveitado essa janela como a China. Aqui a lei de Darwin não tem vez, o paternalismo governamental faz parte do inconsciente dos brasileiros. Como corolário, o Estado é gigantesco e os governos gastadores. Não é de se surpreender que a nossa economia tem apresentado historicamente uma baixa taxa de produtividade. Como conseqüência o fantasma da inflação esteve e estará sempre presente, restando como arma a mão pesada na política monetária tendo como protagonista um Banco Central excessivamente conservador e, como efeito colateral, o populismo cambial. Vamos sempre pagar um preço por isso, e um deles é o retorno ao vôo rasante. Quando os ventos eram fortes até peru voava.

3 comentários:

eterno aprendiz disse...

Mestre KB:

Instigante êste seu Issue (aliás como os D +)... e com tal nivel de informes sôbre o quadro econômico-financeiro mundial, justamente onde mais importa observá-lo, no atual momento pré-tsunâmico do MFI;
a não acrescentar quase nada, pois que impecaveis e irretocaveis as suas observações; acresceria, apenas, que:

Para mim, a história vai se repetir again, repassando mais uma reprise de velhos e manjados filmes... e o inexoravel arrombamento do dique que ora já vasa, é irreversivel. Medidas paliativas, já que as preventivas não foram tomadas pelos mesmos Agentes Oficiais num passado recente, poderão apenas (e a um custo altíssimo) adiar o processo já em curso.


Todo o processo de 'salvamento' ora desencadeado nesta UTI, pelo Tezouro e pelo FED dos EUA, para RÉ-ESTATIZAR as duas gigantes das hipotecas, inicialmente substituindo seus CEOs (um já saiu) por 'Gente da Casa', assim como as D+ polpudas injeçõe$ de ânimo, tanto nelas quanto em outras instituições financeiras gringas, apenas estancará (se), "por algum tempo", o (ou a ) Tsú... e o Big Bear que já acorda de sua recente looooonga, muito longa, hibernação.

Não creio que tais açodadas e como sempre tardias medida$ governamentai$, CURATIVAS, mesmo que do país da maior economia do mundo (ora na corda bamba entre a recessão e a inflação), consigam mais que "retardar" a incipiente deterioração que já contaminou todo o MFI e penso que a raposa Fediana, o ex-todo-poderoso Greenspan (Sir Alan), quando dono da bola, as teria tomado PREVENTIVAMENTE (e com bem menos grana), caso acreditasse êle numa eficácia realmente "salvadora"... ora, o fizesse e agora, a barra limpa, seria eternizado como gênio financeiro, não é mesmo?... e tem mais: para quem previu a bolha 'exuberante' da Nasdaq, seria canja prever esta das Houses (que até nós aqui óh, dêste tamaninho e de tão looonge, pressentimos desde 2004)... BUT, passou a bola para o Bernanke sem aplicar nenhum antídoto, por Q?

Tipo Pilatos, creio que o Lord sabia que seria duvidoso o result e Ponciamente lavou as mãos... e veja que àquela época talvez se evitasse que a pequena rachadura se transformasse no baita bueiro atual que Mr. Bernanke tenta tapar por cima... só que me parece que o tal buraco é, repito: Ben mais embaixo e BEM MAIOR e acresça-se a isso o fato histórico de sempre sairem, junto com os ratos, coisas outras, idem fétidas, de tais vasões.

desculpe-me pela exuberância de meu optimismo.

rsrs e 1 flap amigo.

Anônimo disse...

A metamorfose de um bear para um bull exige um requisito básico. A condição necessária, embora insuficiente, é que os ativos em poder dos weak hands passem para os strong hands. Os strong hands são os agentes mais capitalizados e que, portanto, têm melhores condições financeiras de fazer com que as engrenagens da economia voltem a funcionar. É tão simples quanto isso. (2)


Quem é o Kb que escreveu isto tão bem...preciso citá-lo!

Bob disse...

FDP do Lulla, não aproveitou o crescimento como oda China. Esperar o que de uma anta de 4 dedos.